O mito da beleza por Naomi Wolf

Um clássico sobre feminismo, tive a oportunidade de iniciar a leitura nesse ano, por se tratar de temas com a temática de grande encargo de informação e ter jargões que tornam a leitura mais pesada, levei alguns meses para finalizá-lo. Para mim, por mais demorada que tenha sido, foi completamente válida, assuntos que precisamos falar sobre. Nesta obra, Naomi Wolf retrata a beleza, e o mito criado pela sociedade como forma de controle das diversas mulheres.

De início, temos a visão geral da geração de mulheres que sucederam a ondas de feministas que lutaram por conquistas que o sistema opressor nos negava, Wolf, tinha contato com estudos da área, dessa forma, passou a perceber algo comum que era: após avanços proporcionados pelo feminismo, sempre surgia ideias para oprimir mulheres de alguma maneira, impedindo passos em direção da evolução, amarrando-as em suas regras mais uma vez. 

A política tem como base ideais em que o domínio masculino é supremo, e através dessa supremacia opressora machista, afetam não apenas as mulheres, mas também os homens, é claro que, somos nós, mulheres, as que mais sofrem essa opressão, e a beleza é uma das formas de controles encontrada por esse sistema, que em diferentes culturas, encontraram um jeito de agir.

Naomi Wolf, oferece um relato que expande nossa visão sobre a manipulação da beleza, em tópicos como: trabalho, cultura, religião, sexo, fome (alimentação e distúrbios que resultou entre as mulheres), a violência; detalhando como o sistema usou isso para tentar calar nossas vozes.

Essa manipulação vinha (ela ainda existe) de diversas formas, que sequer parecia estar acontecendo de tão comum e instalada nas mentes de cada um. O envelhecimento era condenado e usado contra as mulheres, marcas vendiam produtos que sequer tinham o efeito prometido, revistas forneciam matérias com ideais irreais e inalcançáveis, afinal, o mito da beleza, cobra das mulheres coisas impossíveis de se alcançar, apesar de saber disso, usufruíram do mito como controle do pensamento das mulheres. Expunham imagens que fizessem as mulheres cobrarem a si mesmas, a se sentirem péssimas em seus próprios corpos, sobre seus gostos e sonhos, além de um jogo psicológico, infiltraram o mito em áreas diversas. 

O capitalismo ganhou à custa do sofrimento feminino, a pornografia que o diga, visto que é uma das falsas imagens criadas como opressão. Falsas promessas, falsos dizeres, colocando expectativas baseadas em uma mentira controladora, cegando as mulheres da misoginia em domínio de toda a sociedade. Na parte referindo-se ao sexo, Naomi Wolf diz “(…) uma cultura misógina conseguiu fazer com que as mulheres odeiem o que os misóginos odeiam”, o que isso quer dizer? Nos manipularam ao ponto de odiarmos a nós mesmas, cada vez mais, e isso deixou uma ferida muito grande, que até nos dias de hoje lidamos com as cicatrizes.

Um dos tópicos discutidos, que acho muito importante ressaltar é sobre como a pornografia não foi feita para as mulheres, segue  outra citação de Wolf, “(…) o corpo do homem não é erotizado para as mulheres. O corpo de outras mulheres não é erotizado para as mulheres. A masturbaçãao feminina não é erotizada para as mulheres. (…) O charme e a atração dos corpos masculinos não são descritos para as meninas por uma voz de mulher; e a atração que sentem por suas amigas não é descrita absolutamente em parte alguma.” Aqui, claramente, vemos como todo esse meio além de violento e opressor, foi usado para nos compararmos e apenas isso, corpos irreais, cobranças jogadas nas mulheres, que iniciaram a busca pela perfeição cobrada por essa sociedade, tal perfeição que não existe, sendo então, uma luta contínua e que não levaria a lugar algum, além de nossos sofrimentos. Como Naomi disse, “isolada do corpo, instada a não vê-lo ou a não senti-lo como humano”. Tudo isso para no final, se questionarmos, nos chamarem de loucas e quererem cessar nossos protestos.

O feminismo é nosso alicerce, e unidas continuaremos a lutar, entendendo cada ponto de vista e vivência, muitos passos foram dados; e mesmo quando o sistema opressor tentar impedir o avanço, não será por muito tempo, afinal, a voz será ouvida, a luta feminista continuará existindo! Estudos sobre o tema é necessário para todos, o acesso a livros feminista é necessário para evoluirmos como sociedade. 

O mito da beleza, apesar de ser excelente em relação aos temas abordados, não é muito acessível, a linguagem e repetição de algumas partes o torna cansativo, mas de qualquer maneira, acredito que seja um livro que devemos ler. É uma leitura didática que abre os olhos sobre coisas que muitas vezes não questionamos, pois sequer percebemos que elas existem, mas estão lá. E sabermos dessas manipulações é importante, pois marcharemos contra elas.

escrito por: AMANDA MARIA

Quem tem medo do feminismo negro? por Djamila Ribeiro

Djamila Ribeiro, é a autora do livro “Quem tem medo do feminismo negro?”, publicado em 2018, pela Companhia de Letras. Esta é uma obra de ensaios autobiográficos, que conta com seus artigos publicados.

Djamila, nasceu em 1980 (Santos), ativista, filósofa e feminista. Ela é mestre em filosofia política e  uma escritora brasileira que esta sociedade contemporânea, em minha opinião, tem a obrigação de conhecer e  ler suas obras. Já trabalhou em áreas diversas, como: secretária e também colunista de alguns jornais, é escritora e coordena a coleção Feminismo Plurais, da editora Pólen. Ela tem dois livros publicados, “O que é lugar de fala” (2017) e “Quem tem medo do feminismo negro” (2018). Suas obras são essenciais e sobre assuntos que precisam ser discutidos. 

O livro é introduzido com a história da infância da autora, contando sua trajetória e autoconhecimento. Na infância foi quando obteve contato com a militância, e isso é retratado no livro, tem como foi o seu crescimento e envolvimento no meio militante e filosófico. Djamila conta como foi ser uma criança negra em uma sociedade racista, como era lidar com as dificuldades no ambiente em que vivia, e também, sobre o crescimento de uma mulher negra e sua autoaceitação, e sua relação com a autoestima. 

É cheio de conhecimento e uma bagagem histórica enorme, é sobre muitos que a sociedade tenta apagar. Nesta obra ela dá a voz para muitos que se viu sendo calados, constantemente, neste país racista, voz estas, que devem ser escutadas. Um livro sobre política, de grande aprendizado para quem o ler, não é uma leitura fácil, não pela sua escrita, que por sinal, é esplêndida e para todos, mas sim, por ser contado histórias que é dolorosas de serem lidas, porém, jamais devem serem esquecidas. É uma leitura compreensível e que deveria ser acessível para todos, pois é uma obra com textos que abrange temas indispensáveis a serem tratados.

Confesso que tive que fazer pausas entre um texto e outro, para refletir sobre o que havia lido; em muitas partes doía a minha alma e dava um nó na garganta, por ser a realidade de muitos, ainda atualmente. Há anos, que pessoas negras tem que aturar esse racismo constante, sendo censuradas e excluídas por uma sociedade hipócrita e eurocêntrica, isso tem que parar. É uma luta, que é enfrentada e caminhada a passos pequenos, mas com a cabeça erguida, a vida de pessoas negras importam, e pessoas brancas tem como obrigação escutá-las e não excluí-las do que é seu por direito, como para todos os seres humanos.

Mulheres filósofas, com obras magníficas e necessárias, são citadas em “Quem tem medo do feminismo negro”, muitos discursos históricos e marcantes, autoras como Simone de Beauvoir e Judith Butler, são uma grande base neste livro. Djamila cita nomes de grandes pensadoras e filósofas, que são autoras de obras que devem serem lidas pelo menos uma vez na vida, para expandir conhecimento enciclopédico, adquirindo um saber sobre assuntos que muitas vezes fechamos os olhos ou que não temos a oportunidade de estudar sobre. 

Tenho comigo, o pensamento de que, muitas vezes não temos força para adentrar em temas que venha a ser complicado e/ou sensível para nós, sei que temos nossas dificuldades e lutas pessoais, que fica até mesmo exaustivo pensar muito sobre um tópico de uma realidade que vai estar, continuamente, acontecendo, independentemente de você prestar atenção ou não, mas isto, não te dá o direito, de fechar os olhos e fingir que não acontece, e não fazer nada sobre, mesmo que seja em pequenas atitudes. Então, por favor, não deixemo-nos que fiquemos em uma bolha de privilégio e não reconhecer que há vozes que precisam ser escutadas, vidas que precisam ser libertas dessa sociedade que as sufocam. Temos que nos sensibilizar e pensar/criar melhorias.

Este livro se tornou muito marcante para mim, e sei que, releituras do mesmo serão feitas. Quando o discurso de Sojourner Truth de 1851 foi citado eu quis fazer com que o mundo a minha volta todo o lesse, acredito muito que, esta é uma obra que precisa, urgentemente, ser lida por todos. Aprendi muito sobre coisas que não sabia e aprofundei o conhecimento em outras que já tinha estudado, terminei a leitura grata por Djamila compartilhar seus textos conosco.

Quando Djamila fala “As autoras e os autores que eu lia haviam me ajudado a recuperar o orgulho das minhas raízes.” — Ler isto aquece meu coração de diferentes maneiras, pois livros e minha relação com eles é o motivo de grande conforto e aprendizado em minha vida, ver a representatividade  que muitos precisam ser retratada, é para mim, uma felicidade enorme, eu como escritora quero poder fazer isso por muitos e por mim, e poder ver outros tendo a sua representatividade em livros, me dá muito orgulho da literatura, e por favor, que muitas vozes possam ser escutadas e representadas!

Finalizo então, com duas frases muito importantes do livro:

“A construção da mulher negra como inerentemente forte era desumana. Somos fortes porque o Estado é omisso, porque precisamos enfrentar uma realidade violenta. Internalizar a guerreira, na verdade, pode ser mais uma forma de morrer. Reconhecer fragilidades, dores e saber pedir ajuda são formas de restituir as humanidades negadas. Nem subalternizada nem guerreira natural: humana.”  Djamila Ribeiro, Quem tem medo do feminismo negro?

“Pensar novas epistemologias, discutir lugares sociais e romper com uma visão única não é imposição – é busca por coexistência.”  Djamila Ribeiro, Quem tem medo do feminismo negro?

escrito por: AMANDA MARIA