A História Secreta por Donna Tartt

“Se por romântico entende-se alguém solitário e introspectivo”, falei “penso que os românticos são frequentemente os melhores estudiosos dos clássicos.”

Não poderia achar uma definição melhor para eles, além de incluir, dramáticos, mórbidos, intensos, sentimentais e extremamente complexos, são características comuns entre os personagens de A História Secreta. Richard, Henry, Francis, Camilla, Charles e Bunny.

A História Secreta parecia estar predestinado a me envolver de maneira tão profunda desde os primeiros contatos que tive com o livro, e como o esperado o fez. Personagens complexos tem se tornado meu ponto fraco, vejo algo que se assemelhe a essa característica e me jogo de cabeça, então, ao conhecer os personagens deste livro e seus segredos foi um grande deleite, — me via devorando cada página com prazer e ansiando pela próxima —, talvez o amor pela língua retratado e suas obscuridades na arte, na vida e na morte, a beleza destes detalhes, tenham influenciado meu afeto sobre essa obra e me alegro com isso. Um envolvimento sentimental profundo conforme conhecia o sombrio segredo que esses personagem carregavam, segredo este que é revelado no prólogo e de ínicio, acompanhamos os eventos antecessores ao assassinato de um dos personagens fundamentais da narrativa — entendendo motivos que os levaram a isso, justificáveis ou não.

Richard Papen tem sua introdução como uma das que mais me agradou como leitor; a sutileza das palavras que a autora dispõe no desdobrar da história e que, futuramente, logo ou não, fará todo sentido quanto mais adentramos na mente da personagem, conhecendo-o, mesmo que minimamente, centenas de páginas depois, voltei a primeira frase e não poderia encontrar outra que superasse a feita por Donna Tartt:

“Existe, fora da literatura, aquela coisa de “falha total”, a nítida fenda escura que se estende e racha uma vida ao meio? Eu costumava achar que não. Agora acho que sim. E penso que a minha é assim: a ânsia mórbida pelo pitoresco, custe o que custar.

A História Secreta, Donna Tartt

A moi. L’histoire d’une de mes folies.”

A História Secreta, Donna Tartt

Richard, nos introduz na narrativa sobre acontecimentos passados, mas de uma forma que sua visão não altera sem entregar a história e deixar explícito o que viria a seguir, além é claro, o assassinato feito por ele e seus amigos relatado no prólogo, ou seja, nos aventuramos neste desconhecido e assombroso ar de mistério, tentador aos olhos de um jovem que queria viver a vida longe da vida pacata em qual fora criado, que por muitos anos se viu sozinho e rejeitado, encontrou pessoas que sua inveja e admiração se misturava. Richard Papen é perturbado pelos próprios pensamentos e tem uma visão obscura ao que o cerca, tanto é que seus humores e as sensações passadas variavam de acordo com qual estação se passava e os eventos seguiam o mesmo esquema, quando Richard sentia frio, nós sentíamos nossos ossos doerem com os dele, quando suas emoções o feriam e o sufocava, nós podemos sentir quão profundo é, e isto não é apenas referente a Richard, e sim com os demais personagens. Ele descreve tudo com os encantados pela primeira impressão ao entrar na universidade, visionando seus dias futuros ali, eventos futuros irrelevantes quando não se sabia quais seriam.

Nas interações de Richard com o professor do curso de grego, do qual estava decidido a entrar a todo o custo, os amigos que fez fazia parte deste curso, uma turma pequena, passando a ter seis alunos quando ele entrou, o diálogo que teve com Julian, o professor, não sei exatamente por qual motivo, gostaria de deixar registrado aqui:

“Se por romântico entende-se alguém solitário e introspectivo”, falei “penso que os românticos são frequentemente os melhores estudiosos dos clássicos.”

A História Secreta, Donna Tartt

Não poderia achar uma definição melhor para eles, além de incluir, dramáticos, mórbidos, intensos, sentimentais e extremamente complexos, são características comuns entre os personagens de A História Secreta. Richard, Henry, Francis, Camilla, Charles e Bunny.

Outra frase, marcante e reconhecido por aqueles que têm contato com o livro é a seguinte, feita na aula de grego ainda no início:

“A morte é a mãe da beleza”, disse Henry.

“E o que é a beleza?”

“Terror.”

A História Secreta, Donna Tartt

Me encantei pela maneira que Donna Tartt retrata a beleza, morte e vida, a literatura e a obscuridade nesta obra, vi sua paixão pela arte da escrita e literatura, para mim isso é sempre um prazer.

Temos sempre o ponto de vista de Richard, então pouco sabemos sobre os outros ou o que de fato está acontecendo a não ser que seja revelada ao personagem ou ele descubra. Richard e os outros são complexos em demasiadas formas, e ainda assim, podemos sentir simpatia, tirando um dos personagens (e um outro conforme sua personalidade doentia ia se mostrando) que não conseguia suportar, mas entendia sua importância a história. Para mim, é magnífico como na literatura podemos acompanhar personagens tão enigmáticos.

Donna Tartt no decorrer da história mostrava a variáveis de seus humores e como suas próprias atitudes em cada evento os afetam nos próximos capítulos, as nuances retratadas foram muito bem feitas.

Richard tem vários momentos depressivos e autodepreciativos, por exemplo, sua dificuldade de se ver bem-vindo naquele meio que estava incerido, ou como suas mudanças de humor se tornavam um emaranhado de confusão de acordo com seus sentimentos. Ele em algumas parte deixava a mente divagar em lugares sombrios, Richard, flerta com a morte e sua beleza, ao mesmo tempo me choco que ele não tenha se ferido a ponto da própria morte, ainda que se ferisse com vícios (os outros personagens também) eles tinham um almejo a vida e suas singularidades. Como o próprio Richard diz em um desses períodos “fantasias mórbidas à la Poe”, Donna, conseguiu descrever admiravelmente a mentalidade do personagem nessas páginas.

“Sentia que as pessoas não me viam, como se pretendessem passar através de mim, minhas superstições começaram a se transformar em mania.”

A História Secreta, Donna Tartt

“Com as duas mãos no parapeito gelado, olhando a água que espumava ao passar pelas pedras maiores e fervia por entre as menores, imaginava como seria cair e rachar a cabeça numa daquelas pedras brilhantes, um estalo audível, o imediato desfalecimento, veias em vermelho marmorizando a água cristalina.”

A História Secreta, Donna Tartt

Pode aparentar que tenho favoritismo pelo Richard, mas não verdade não. Gosto da maneira sombria que ele via as coisas, talvez por me identificar em determinados momentos, nada além disso. Tenho apego por Francis e Camilla, até mesmo por Henry e seu ar misterioso. Ao mesmo tempo que quero falar sem parar sobre este livro e seus segredos, tento me segurar para não estragar sua possível experiência. O que procurei prestar a atenção era na interação entre os personagens, como em grupo agiam de certa forma e separados em minoria ou individuais tinham outras facetas sendo reveladas, e este é um adendo que quero fazer, preste atenção nestes detalhes, pelo menos para mim foi interessante.

Sobre o assassinato cometido por eles, em nenhum momento é romantizado, e foi curioso ver como cada um deles passaram agir após, o primeiro e o segundo cometido, o primeiro não sendo proposital mas a maneira feita é tão curiosa e ao mesmo tempo engraçada, ainda mais levando em consideração a reação de Richard, eu juro que dava risada sendo que toda a situação era dramática e um tanto mórbida, pois foi devido a um culto a Dionísio, um deus grego, ou seja, fizeram um bacanal e causaram uma morte não planejada. Já no segundo assassinato, o cometido por todos (ambos são relatado nas primeiras páginas e ou/ sinopse), a gente acompanha a evolução e como chegaram nessa decisão, e por mais errado que seja, até compreendemos o que os levaram àquela situação. É uma confusão total e não poderia adorar mais. Vemos esse vínculo sendo formado e avançado a cada estação do ano e o que elas traziam.

Quero comentar sobre a Camilla ser a única mulher do grupo e deixar aqui as notas que fiz sobre isso, voltando nelas pude ver como estavam presos uns aos outros e que ao mesmo tempo ali era uma forma de liberdade para ela, vendo o fim que teve neste livro. E uma das coisas que prestei atenção foi como Richard pontuava a semelhança entre Camilla e Henry, e como ele era fascinado por ambos, mesmo que não percebesse, vi em Richard paixão e raiva referente aos dois (e uma energia bissexual, mesmo que não tenha sido pontuado, continuo crendo que ele seja um os meus, risos).

É curioso como nem os próprios personagens conseguem encontrar uma justificativa a seus atos, apenas agiam assim e depois lidariam com as consequências, mas é nos pequenos detalhes que vemos o que os corroem por dentro.

Acredito que alguns “fins” foram inevitáveis e quando se presta atenção em cada personalidade, passa a fazer sentido, apesar de ter preferido que algumas coisas fossem diferentes, nem tudo nos agrada afinal, certo? Para finalizar, antes que fale mais que o necessário, é importante dizer que este pode não ser um livro perfeito a sua visão, como qualquer obra pode vir a ter algo problemático (vale ressaltar o período escrito/publicado) e que há cenas pesadas e quem sabe gatilhos para algumas pessoas, é sempre bom estar informado.

Com certeza, A História Secreta entrou na minha lista de queridinhos. Um calhamaço que vale a pena ser relido. Espero que tenham tido um bom tempo lendo minhas palavras e quem sabe possam dar a mesma chance a essa obra literária. Quero agradecer pelo apoio e desejo a todos que encontrem livros que os instiguem e envolvam.

Obra literária: A História Secreta 

Autora: Donna Tartt, publicado em 1992.


escrito por: AMANDA MARIA