filha da lua leu — junho

Oi queridos, como foi a leitura de vocês neste mês? Espero que tenham encontrado algo que aqueça seus corações e façam suas mentes se aventurar no desconhecido!

Conectadas por Clara Alves

Raíssa desde muito pequena era encantada por jogos, assim como seu pai e quando, após muito ter pedido, deixou ela começar a jogar no computador dele, conheceu um mundo novo que a fascinou, mas o universo dos jogos ensinou que como uma menina, ela seria tratada de maneira diferente, machismo e assédio a assombrou logo de início, mas Raíssa não querendo que isso a afetasse e pudesse jogar em paz, criou um perfil no nome de um amigo e foi assim por muito tempo, sua identidade verdadeira não era um problema, a não ser é claro, a partir do momento em que Ayla, outra jogadora e usando seu próprio nome, surgiu na vida dela.

Elas formaram uma amizade, que apesar de ser através da internet cresceu para algo mais profundo. Os sentimentos de Raíssa ficaram confusos, pois ela gostava de garotas, mas não estava pronta para assumir isso para si mesma ou para a família, e sem saber como lidar com o fato de que não usava seu nome e Ayla se apaixonou por ela pensando que fosse outra pessoa, tenta organizar a enrascada em que se meteu sem ferir a si mesma ou a garota que amava.

Um evento relacionado ao jogo que as duas jogam junto foi revelado e apesar dos empecilhos, finalmente, iriam se conhecer, mas qual das identidades de Raíssa seria mostrado a Ayla?

Este é um romance que retrata duas garotas adolescente, verdadeiramente, reais. Inseguras e aprendendo sobre si mesmas e sobre o que pouco sabem. Acompanhamos a jornada delas de autoconhecimento, aceitação e descobertas de formas diferentes de amar. Foi um prazer ler um livro tão atual e o carinho da autora em sua obra, queria poder ter visto mais sobre elas, pois foi lindo ver o crescimento de Raíssa e Ayla, o quanto mudaram e vê-las se desvencilhar aos poucos de seus medos e viver o amor que sentem uma pela outra sendo elas mesmas.

Feminismo é para todos (políticas arrebatadoras) por Bell Hooks

Bell Hooks e suas obras são um grande marco na literatura feminista, sua linguagem tem o poder de alcançar a diferentes povos, e é este um exemplo de livros que devemos consumir, sem palavras que nos deixem ainda mais confusos, mas que esclareça duvidas e nos introduza a temas tão importantes.

O feminismo é para todo mundo é uma excelente obra que a cada capítulo, ainda que pequeno, ascenda aquela fagulha de curiosidade, um despertar para o tema e como podemos agir junto em busca da igualdade e quebra de padrões opressores que tanto queremos. 

Hooks levanta questionamentos e acentua ponto que precisam ser melhorados mesmo dentro do movimento feminista, tais como: se algumas dessas mulheres (no primeiro momento, em sua maioria brancas) alcançarem um cargo mais alto e não ajudar os outros ainda oprimidos; estarão negando um futuro de oportunidades e compartilhamento como sociedade, dessa forma, mulheres que não tiveram o acesso terão a igualdade que buscamos negadas e estariam compactuando com o sistema patriarcal e de nada adiantaria o avanço se a porta batesse na cara dos que seguiam na luta feminista. Nossa existência e gostos pessoais, independente da sexualidade, se não temos os homens como prioridade e seus ideias como o correto somos uma ameaça e é por isso que tentam com tanto afinco criar rumores e menosprezam o movimento, somos uma ameaça ao patriarcado que seguem cegamente.

O movimento feminista é composto por vários recortes, e neste livro, Hooks, toca neles de maneira realista e clara, mesmo que breve e em capítulos curtos, o acordar para essa luta fica aberto e instiga ao leitor a querer saber mais sobre os temas tratados. Quando a autora cita o feminismo global, acho importante ressaltar sua opinião sobre “(…) O objetivo do feminismo global é se estender e alcançar lutas globais para acabar com o sexismo, a exploração sexista e a opressão.” É uma luta para todos. Assim como, ela cita sobre o acesso de conteúdo feminista, precisamos que esse conhecimento alcance a todos, tal conhecimento é o que sustenta o movimento. 

Eduquemos nós mesmos e fornecemos a oportunidade para aqueles que ainda não se integram nos temas, pois como Hooks diz, “feministas são formadas, não nascem feministas.” Todos sofremos de certa forma com o sistema opressão, uns mais do que os outros, mas esta é uma luta para que todos lutemos.

O urso e o rouxinol por Katherine Arden

O urso e o rouxinol se passa na Rússia medieval, em torno da família Petrovna, em especial a Vasilisa Petrovna, que a mãe morreu quando a filha nasceu. Vasya é diferente de seus irmãos, a mãe dela sabe disso e se certifica de que a menina sobreviva, como último pedido ao marido para que seja mantida em segurança.

É repleto de magia, só que de um jeito tão diferente, pois se mistura com realidades históricas, como por exemplo, quando a igreja começou a inserir o cristianismo em culturas que não fazia parte, e como seu apagamento feriu aldeias que entravam e espalharam seus dizeres  de maneira que se viam superiores aqueles com outras religiões, é descrito entre fantasia esse apagamento que ocorreu anos atrás em diversas partes do continente. 

Quando iniciei a leitura não esperava por temas pesados assim serem tratados, mas foi feito incrivelmente. A escrita da autora foi um grande deleite e me encantei por Vasya em cada virar das páginas. 

Vemos a personagem e suas visões diferentes de toda sua aldeia, que conforme o tempo passava desacreditaram de seus mitos e lendas, os deuses e demônios, estes que faziam parte da cultura deles, e assim, a personagem precisa lutar contra  as críticas, que eram pesadíssimas, a desprezavam, mas ela se tornou uma das razões para sobreviverem aos invernos rigorosos que tinha todos os anos.

Vasya é uma pessoa forte, apesar de tudo o que sofre, se manteve gentil com os outros, eu não me conformava, havia momentos que não podia mais suportar e queria protegê-la de todo o horror que a faziam aturar, outras meus olhos revirava e o estômago embrulhava, os altos e baixos, tamanhas as surpresas que a autora proporcionou com essa obra.

Gostaria que tivesse tido um final mais adequado e ao nível que este livro merecia, mas isso não impediu do prazer que tive ao lê-lo e por ser uma trilogia, acredito que será aprofundado nos outros livros. Mal posso esperar para ver a evolução de Vasya, pois a achei magnífica e anseio por mais de suas aventuras, sua opinião e convicções, assim como a magia que vive nela e o desenvolver dos demais personagens, pois acredito que tenha um grande potencial de ser extraordinário.

É necessário termos registrado esse trecho pois é incrível a firmeza que seus pés fincam no chão em direção a sua liberdade e do que acredita.

“— Durante toda a minha vida  — ela disse  —, me mandaram “ir” e “vir”. Me dizem como vou viver e como devo morrer. Tenho que ser a criada de um homem e uma égua para seu prazer, ou tenho que me esconder entre muros e render minha carne para um deus silencioso e frio. Eu entraria nas malhas do próprio inferno, se fosse um caminho da minha própria escolha. Prefiro morrer amanhã na floresta a viver cem anos a vida que me é indicada.”

Circe por Madeline Miller

Neste livro temos a releitura da vida da semi-deusa Circe, passamos ao lado da personagem, desde o início de sua vida imortal e os anos subsequentes. Tenho pouco contato com a literatura grega, minha trajetória é rasa, apesar de gostar muito e posso dizer que foi um prazer acompanhar Circe.

Incompreendida e julgada desde seu nascimento, pelos deuses, ninfas, e os demais desse universo mitológico. Começamos a leitura nos primeiros anos da personagem nos salões de seu pai, Hélio, que tem mais três filhos com sua mãe, a ninfa Perseis, e muitos outros espalhados pelo mundo. Circe sempre agiu de maneira submissa e aguentou calada todo o abuso que sua família jogava em seus ombros, após certo tempo, decide ser ousada e fazer algo por si mesma, ela se apaixona por um humano e com isso se resulta problemas e sua expulsão para uma ilha.

Após Zeus bani-la, é quando o melhor começa acontecer, o que mais me cativou foi Circe tendo seu despertar selvagem, seu lado bruxa que foi ocultado pela negação de seu potencial existente, assim como seus irmãos, ao estar longe dos salões de Hélio, teve o contato com sua magia, no caso dela, foi um pouco mais tarde, mas isso não importava, pois, finalmente, seus olhos se abriram e estava pronta para recebê-la de braços abertos.

“Eu não serei como um pássaro criado em uma gaiola, pensei, entorpecido demais para voar mesmo quando a porta está aberta.” (…) “Entrei naquela floresta e minha vida começou.”

Se tornou a pessoa que queria ser, aprendeu sozinha, ao lado dos animais selvagens e a natureza, suas facetas foram descobertas, pois Circe era mais do que apenas a filha de um deus, ela era uma semi-deusa, ninfa, feiticeira e bruxa. E assim, passamos a conhecer a vida turbulenta, com altos e baixos, às vezes, tediosa e solitária, são tantos os anos colocados neste livro que fica difícil falar sem estragar uma possível leitura de vocês. 

A autora colocou personagens marcantes da mitologia grega, muitos sem importância, e tive um problema com a constância da narrativa, era encantador ler sobre a vida de Circe, mas quando foi optado por tratar de pontos não tão interessantes, como relacionamentos com homens e humanos, era um pouco cansativo. Gostaria, por exemplo, de ter tido a experiência de vê-la ensinando as ninfas que foram viver em sua ilha (uma das muitas punições que os deuses a infernizou no decorrer dos anos exilada), tanto é que fiquei maravilhada e devorava capítulos que o seu lado místico e selvagem era mostrado.

Circe é uma personagem que não cabe nas jaulas que queriam mantê-la, com seus dedos cria feitiços e luta por aquilo que acredita. Foi fascinante ler o desenvolver de alguém complexo como Circe, afinal, personagens que buscam por sua liberdade intelectual e selvagem são meu ponto fraco, lembrei de Jane Eyre, que já publiquei aqui se quiserem dar uma olhada, mulheres que não se deixaram ser mantidas em cativeiro e inspiraram a cada página e me tiraram suspiros.

Alice no país das maravilhas por Lewis Carroll

Acredito que quase todos nós conhecemos a história das aventuras de Alice, em algum momento em nossa infância, mesmo que apenas de outras bocas, ou por filmes e desenhos animados, se originou de livros, e após muito tempo, foi apenas nos meus vinte e um anos de idade que tive o primeiro contato com a obra escrita, não poderia me encantar menos com a imaginação da personagem e para onde elas a levam, é um lembrete da criança que fui e ainda vive em mim, e daquelas que gosto de manter em personagens que crio. 

O livro em si é uma loucura total e adoro isso! Cada coisa sem sentido, mas que ao mesmo tempo, faz todo o sentido, o que é ainda mais confuso. Enigmas coloca entre as palavras e um universo que mostra a cada página o medo de uma menina que está crescendo e não sabe como lidar com isso, o que ficou ainda mais explícito no diálogo que a personagem tem com a lagarta, foi reconfortante viver no mundo de Alice, pois me lembrou a mim mesma; mostro-lhes o diálogo:

“Quem é você?” Perguntou a Lagarta.

Esta não foi uma abertura encorajadora para um conversa. Alice respondeu timidamente:

“Eu… no momento, senhor, eu mal sei… pelo menos sei quem era quando levantei-me hoje de manhã, mas acho que devo ter mudado várias vezes desde então.”

É uma bela forma, pelo menos para mim, como nossa mente lida com as mudanças inesperadas, algumas boas e outras nem tanto, mas que acontecem e cabe a nós mesmos descobrir como seremos.

O que me encanta em Alice é sua imaginação e olhar para a vida, gostaria de encerrar com a frase do primeiro capítulo que poderá representá-la muito bem:

“Alice tinha se acostumado tanto a esperar só coisas esquisitas acontecerem que lhe parecia muito sem graça e maçante que a vida seguisse da maneira habitual.”

Caso tenha chegado até aqui, quero agradecer por tirar um momento para ler minhas palavras, logo estarei de volta.

escrito por: AMANDA MARIA

Autor: coresfilhadalua

escritora. encanto-me pelas palavras e pela magia dentro dos livros.

2 comentários em “filha da lua leu — junho”

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