filha da lua leu – março e abril

O emaranhado de confusão atual que ocorre no mundo fez com que minha mente se afogasse na ansiedade e as palavras me faltavam para descrever o que queria, minhas leituras continuaram, no mundo dos livros eu queria me aventurar, uma forma de escape, como sempre, as palavras me salvaram. 

Apesar de tudo, finalmente, consegui escrever algo.

Vos escrevo então, sobre últimas leituras feita por mim. Futuramente planejo publicar sobre leituras separadas, será esse o motivo de alguns livros já lidos estarem faltando aqui. Vamos lá?

 

Mulheres que correm com os lobos por Clarissa Pinkola Estés

Palavras escapam de minha mente para fazer uma introdução digna a este livro, colocarei então a frase que contém no prefácio, que deixou-me arrepiada logo de início.

“Todas nós temos anseio pelo que é selvagem. Existem poucos antídotos aceitos por nossa cultura para esse desejo ardente. Ensinaram-nos a ter vergonha desse tipo de aspiração. Deixamos crescer o cabelo e o usamos para esconder nossos sentimentos. No entanto, o espectro da Mulher Selvagem ainda nos espreita de dia e de noite. Não importa onde estejamos, a sombra que corre atrás de nós tem decididamente quatro patas.” Clarissa Pinkola Estés.

A relação que temos com a mulher selvagem engloba as mulheres em tantos aspectos, de diferentes perspectivas, e é tão maravilhoso saber que existem tantas variáveis para a Mulher Selvagem, penso eu.

Suas formas de chegar até nós é ainda mais fantástica, através da arte, de todo o dia de arte, aquela que nos ajuda a respirar em momentos que pensamos não ser mais possível. Ela vem na escrita, vem na pintura, vem na música, vem na dança, vem do nosso movimento, vem do nosso ser, pois somos a Mulher Selvagem. 

A autora diz como a Mulher Selvagem foi silenciada dentro de nós por tanto tempo e que para muitas mulheres continua sendo, o quanto isso deixa-nos presa em uma imensidão de descontentamento e infelicidade, por mais que uma mulher seja reprimida, tenha suas patas amarradas, a Mulher Selvagem ainda está com ela, precisa apenas ser despertada. Seu instinto poderá auxiliar por sua liberdade, independente de qual seja a liberdade que lhe é essencial, e teremos o suporte maior conforme nos ajudamos a dar o próximo passo.

Cada capítulo contém narrativas e analogias feita pela autora de contos antigos, manipulados através do tempo, mas que ali temos a faísca da Mulher Selvagem de alguma maneira, mesmo que escondida. 

Um dos comentários das histórias feito pela autora, é sobre o Barba-azul. O que ou quem seria ele?

Barba-azul seria aquele típico padrão do homem como predador, fazendo das mulheres suas presas e torturadas. História essa que se relaciona a estruturas de relacionamentos abusivos e morte de mulheres que teve contato com esse tipo de predador.

Colocado de maneira interessante, a analogia feita pela autora, de que todos temos predadores e a qualquer momento podemos nos tornar vítimas, e como o nosso instinto avisa a aproximação ao sinistro que seria este homem. Ela diz ser necessário a compreensão em relação ao predador, para então, sabermos como não nos deixarmos vulneráveis a possíveis ataques. Para o predador, é um jogo de controle até o próximo passo ser dado, dando fim a vida ou qualquer que seja o objetivo.

O reconhecimento da zona de perigo se tem devido a qualquer convívio passado com algo parecido, algumas mulheres já são ensinadas desde muito nova a proteger-se de predadores, deixando os instintos e garras, atenta a todo instante, o que vem a ser exaustivo e corriqueiro na vida de uma mulher, independente de qual mulher seja, todas em algum momento enfrentaria seu predador.

A irmã mais nova ignorando os conselhos das mais velhas, e a mãe não impedindo-a, é um triste retrato de situações até mesmo atuais, a mulher se permitindo entrar no relacionamento sufocante e controlador, com esperanças tolas de que amanhã será melhor, ele vai melhorar ou que não é tão ruim quanto parece, no final, nada melhora e de fato, era tão ruim quanto parecia, às vezes, se torna ainda pior.

É um livro de estudos de muitos anos, o conteúdo é denso mas essencial. Temas dos mais profundos aspectos é proposto, sentimentos, vidas, perspectivas da vida da mulher. Clarissa Pinkola Estés, têm como base a psicologia junguiana e apresenta ao leitor uma evolução e transformação na vida de muitas mulheres e manipulações sofridas no decorrer da história da humanidade. Temos contato, então, com a essência da alma feminina e seus instintos. O caminho que seguimos e a vivência da Mulher Selvagem dentro de nós.

 

The Arc of an Scythe — Trilogia por Neal Shusterman

O primeiro livro tem o título traduzido “O ceifador”, teve sua primeira publicação em 2016 e o segundo “A Nuvem”, em 2018, já o terceiro da trilogia ainda não chegou traduzido no Brasil mas já é existente desde 2019  — minha leitura foi  apenas dos dois primeiros livros, para evitarmos spoilers, nos post de hoje, falarei apenas o básico desse curioso universo.

Um mundo distópico, a tecnologia avançou nas mãos da humanidade e agora quem mantém esse universo em ordem é essa tecnologia, chamada Nimbo Cúmulo — ela vê tudo mas não controla cada detalhe apesar de ser uma possibilidade, a Nimbo Cúmulo deixou na mão da humanidade o nascimento e a morte da população, apesar de ter dado a imortalidade a todos. Passado séculos desde a Era da Mortalidade, a população continua a crescer e a maneira encontrada para manter um número que a Terra possa sustentar conforme os Imortais vivem, é a Ceifa.

A Ceifa fica espalhada por cada continente, ela é responsável por coletar a vida dos humanos. Muitos os temem, outros os adoram, outros os ignoram, a Nimbo Cúmulo é capaz de controlar tudo mas ela se abstém quando o assunto é a Ceifa e seus Ceifadores.

Neste livro é repleto de questões filosóficas e éticas, perspectivas e singularidades. Na página 14, uma das personagens principais, Citra, diz “…a esperança diante do medo é a motivação mais forte do mundo…” , conforme avanço na leitura percebo o quão necessário isso se tornou nessa sociedade, chegaram a um ponto de perfeição, de conquistas apenas imagináveis aos antepassados, e após as mesmices em suas vidas, alguns na humanidade perderam o prazer de evoluir, de criar, pois qual seria o próximo passo quando já se alcançou tanto? 

Há diversas facetas nessa humanidade e é curioso a forma como é tratado, quando até mesmo pular de um prédio e morrer, se transforma em divertimento, afinal, o fim de suas vidas é uma porcentagem minúscula em comparação a Imortalidade, ao menos que, um Ceifador te colete. 

Citra Terranova e Rowan tem seus caminhos entrelaçados, quando são oferecidos o cargo de aprendiz de Ceifador. O treinamento se inicia e adentramos nesse universo dos ceifadores. Ideias e estilos de vidas singulares, é interessante conforme avançamos na história e conhecemos esses pontos de vistas.

Uma das características que mais gostei, foi o fato de ter trechos dos diários de ceifadores, assim, conhecemos a mente de cada um, mesmo que apenas um pouco, temos um gostinho de suas convicções e insere questionamentos e explicações relacionado a narrativa do livro, situando o leitor da realidade retratada.

 

Um dueto sombrio por Victoria Schwab

Desde o final de A Melodia Feroz, as personagens seguiram seus destinos, devido às escolhas feitas por eles, as consequências estavam aguardando, não havia mais como fugir. 

No segundo e último livro da duologia, nos aventuramos ao lado de Kate e August, em Um Dueto Sombrio eles têm suas batalhas pessoais a serem enfrentadas. Monstros que os cercam, monstros escondidos dentro de si mesmos. 

August se tornou capitão dos soldados da resistência, parando de resistir daquilo que o assombrou por toda a vida. Se viu aceitando calado, mesmo que doesse, teria de viver sendo o que era, apenas dessa forma, poderia ter alguma esperança. As notas saindo de seu violino, e o ar escapando dos pulmões dos pecadores, assim, August salvava quem podia, aceitando os que fugiam do massacre do outro lado da cidade, se juntando a resistência.

Ao contrário de August, que preferia afastar os maus que ele via em ser um sunai, a monstruosidade que sua natureza remete, afastando a humanidade que tanto sonhava. Temos Kate, caçando monstros desconhecidos em cidades vizinhas, a evolução da personagem e o enfrentamento contra seus monstros pessoais e aos que a cercava era óbvio, e crescente. 

Chega a um ponto da história que não há como negar, a atração que ela sente em relação a própria cidade, e quando o inimigo desconhecido aparece, Kate se vê sem nenhuma opção além de lutar ao lado da população sobrevivente e controlados por monstros de seus passado.

O inimigo desconhecido aqui é invisível e se alimenta de algo que nenhum sobrevivente em Veracidade sabe. Ideias e maneiras de lidar uns com os outros na  guerra precisam ser revistos, uniões precisam ser feitas. Fugir não é uma opção. 

O caminho a frente é sangrento, sombrio, violento e desconhecido. Para Kate e August, não enfrentar os monstros que vivem dentro de si mesmos não é uma alternativa e neste último livro vemos como isso será feito. E que nem tudo é como esperávamos.

 

Todo mundo tem uma primeira vez

União de contos que chegam de surpresa, nos marcando e dando aquela sensação de nostalgia, mesmo não tendo vivido algumas dessas situações, conforme eu lia, esse sentimento não era afastado, apenas uma crescente, tornando a leitura leve e deliciosa numa tarde de domingo.

Ao iniciá-lo esperava por primeiras vezes típicas mas fui surpreendida entre diferentes vivências, sonhos, tristezas e medos. Cada conto feito de carinho e dedicação de autores brasileiros, compartilhando com o leitor suas palavras e histórias, transformando e abrindo a mente do leitor ao mostrar pontos de vistas que há muitos foram negado.

Tenho salvo comigo um trecho lindíssimo introduzido na apresentação do livro, narrando ao leitor o propósito do livro, quero deixar aqui para alimentá-los com essa perspectiva e que deem uma chance a esse compilado de primeiras vezes singulares.

“A literatura é uma herança. Quem escreve hoje, no Brasil, carrega as mãos uma história de muitos autores que vieram antes, mas também dos que não tiveram voz. Carrega também, a responsabilidade de escrever um novo mapa, uma rota, a construção de um farol para quem está vindo passos atrás, tentando aprender sobre a vida.” — Socorro Acioli.

Para mim, uma amante de livro, uma jovem escritora que encontra sua inspiração ao meio das palavras, que busca nelas o apoio e esperança, essa simples frase, me fortificou e causou admiração. Que nossa literatura continue a dar voz e vida aos diferentes leitores.

 

Eu Quero Mais por Tayana Alvez

Elizabeth se muda para São Paulo ao iniciar na universidade que tanto queria. Entre relacionamentos, amizades, questionamentos e crescimentos pessoais; a personagem tenta se acostumar com a nova rotina, ao redor de pessoas desconhecidas. 

Vemos neste livro, o desenvolver da personagem, o autoconhecimento, o progresso mesmo que demorado, sobre aquilo que é necessário na vida dela e aquilo que apenas a tem causado mal. 

A personagem em cada capítulo vai abrindo os olhos para o que a cerca e descobrindo quais as prioridades e o que será preciso para realizar os próprios sonhos e seguir os princípios que carrega consigo.

 

Trilogia Grisha por Leigh Bardugo

O universo Grisha é mais explorado por Leigh Bardugo nessa trilogia, e confesso que, esta é a razão para continuar minha leitura, ao contrário da duologia da autora, que se tornou um dos meus mais queridos livros, esse foi sem graça e pouco cativante, apesar disso, a escrita de Bardugo é leve e carrega a história de maneira que me estimula a continuar.

Ocorreu poucos picos que me arrebatou e tirava-me o fôlego através da leitura, o desenvolvimento de personagens é tedioso, poucos deles foram interessantes, a possibilidade deles serem trabalhados melhor é existente, tanto que, acredito que se a autora se aprofundar nessa trilogia com seu conhecimento atual seria muito superior ao maçante resultado desses livros.

Alina Starkov, uma órfã e com pouco a se importa na vida. Levava a vida monótona no regimento militar do Primeiro Exército, trabalhando como cartógrafa, até que se vê correndo perigo numa das expedições e seu melhor amigo, por quem é apaixonada, se fere e têm, surpreendente, o poder que se escondia nas entranhas dela revelado.

Com o poder revelado, ela é reconhecida como uma dos Grishas e é levada a corte real para receber treinamento como tal, no mundo de guerra e com os Grishas quase extintos é necessário que se mantenham unidos e treinados por seus poderes.

O Segundo Exército, dos Grishas, é liderado pelo Darkling, um poderoso Grisha, histórias sobre ele é sussurradas entre o povo de Ravka, e ali com ele, Alina é introduzida em um mundo que há pessoas que possa se assemelhar e entendê-la. 

Em meio às novas adaptações, a personagem se vê tendo que lidar com a atual vida e o peso de seu poder, o que isso importa e como poderá ajudar seu próprio país. Entre segredos, descobertas e escolhas, Alina Starkov se aventura no mundo das sombras que cai sobre Ravka e busca por desenvolver a conexão com seu poder Grisha.

 

Memórias Póstumas de Brás Cuba por Machado de Assis

Machado de Assis, o tão reconhecido autor e figura de extrema importância para a literatura brasileira. Seus ideais, suas críticas provocativas, suas histórias cativantes e personagens que causam desconforto, que para mim muitas vezes seria difícil de suportar numa leitura, não ocorre quando se trata dos livros do Machado, o autor tem a capacidade de quando inicio um livro seu, o mais insuportável que seja a personagem, quero consumir cada palavra que ele propôs através de sua escrita.

Neste livro, o autor traz ao leitor um defunto como narrador, após sua morte, ele relembra fases da vida que teve, escolhas que fez e memórias que o assombra. Sarcástico, egocêntrico e provocador, atraindo a atenção a leitura aos detalhes de sua própria morte, inicialmente, para então, nos narrar a infância e os anos seguintes.

Brás Cubas, teve amores, amizades, aventuras e mudanças de ideias, muito crítico e reclamão, então, Memórias Póstumas de Brás Cuba nada mais é que, o personagem defunto que escreveu o livro sobre sua vida, ele retrata seu ponto de vista daqueles que traçou algum caminho na sua existência e narra, de maneira interativa, desastrosa e um tanto autocrítica.

 

 

Se você leu até aqui, obrigada, quem sabe podemos conversar mais sobre algum livro? Caso se sinta confortável, comente, ficarei muito feliz de saber o que se passa por aí. Se cuidem!

E não se esqueçam: desejo a todos o conforto e conhecimento dos livros!

 

escrito por: AMANDA MARIA

Autor: coresfilhadalua

escritora. encanto-me pelas palavras e pela magia dentro dos livros.

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